sexta-feira, 3 de julho de 2009

Casualidade

Cientista renomado, havia passado toda sua vida adulta dentro daquele laboratório. Gênio, de poucos amigos e histórico de relacionamento amoroso inexistente, possuía inúmeros tipos de TOC – transtorno obsessivo compulsivo. Suas anotações eram todas feitas em código, criado por ele mesmo aos 11 anos de idade. Desde criança sabia ser dotado de enorme inteligência e, ainda nesse período, resolvera contribuir de maneira significativa para a humanidade. Buscava a cura do câncer.

Nosso herói olhou o calendário em cima da bancada e fez a conta. 21 dias desde a última vez que sentiu a luz do sol batendo em seu rosto. Descabelado, a barba rala e fedendo, só não era confundido na rua como mendigo, por seus trajes ainda brancos. Finalmente a solução fora encontrada. Como em outras famosas descobertas, a resposta estava diante de seus olhos todo o tempo, mas isso já não importava. Era preciso espalhar a notícia.

Contar para quem? Seus poucos amigos estavam também trancados em outros laboratórios em suas buscas individuais, quaisquer outros não alcançariam compreender o caminho percorrido por ele. Absorto em seus pensamentos enquanto caminhava, nosso herói foi atropelado.

Modelo internacional, havia passado toda sua vida, desde a adolescência em cima das passarelas. Constantemente badalada, vivia cercada por pessoas que sabia pouco além do nome. O trabalho extremamente desgastante tinha suas recompensas. A pequena fortuna que havia acumulado lhe servia de estímulo.

O médico tentou suavizar a notícia perguntando-lhe sobre suas crenças religiosas. Não havia nada a fazer. Dias, alguns meses no máximo. Em sua cabeça, a voz do homem de jaleco que estava a sua frente ecoava com a palavra sinto muito. Ela precisava de alguém que a abraçasse, mas quem?

Entrou em seu carro e ao sair do estacionamento atropelou um homem.

O choque não foi forte, mas o som do crânio batendo no meio fio pode ser ouvido à distância. Desesperada, saiu do veículo e se ajoelhou ao lado do corpo estendido. Sem nenhuma outra reação, o colocou em seu colo e chorou acariciando o rosto pálido do homem desconhecido.

2 comentários:

  1. Adoro os seus textos! São escritos com a alma, mtos na dor da alma outros na pura sensibilidade de um artista. Te Amo
    Jacque

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  2. Duas vidas. Duas histórias tão diferentes, mas com uma coisa em comum. A solidão.

    De que adiantam grandes descobertas, grandes fortunas, sucesso e inteligência. Se no fundo,e na verdade estamos sozinhos?


    A pergunta que move o mundo.

    Sempre surpreendendo.

    Bejoss

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